Diversidade e o balé clássico do Festival de Dança de Joinville 2026
- Nayara Calixto

- 4 de ago.
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Em 2022, a ausência de jurados negros no Prix de Lausanne gerou indignação e provocou um amplo debate sobre representatividade no balé clássico. Quatro anos depois, cabe refletir sobre a realidade brasileira: como está a representatividade nos principais festivais de dança do país, na atualidade, na modalidade balé clássico? Há uma presença significativa de profissionais negros nos espaços de maior prestígio? Há diversidade nos júris das competições e nas atividades pedagógicas de balé?
Do dia 20 de julho a 1 de agosto, aconteceu o 43° Festival de Dança de Joinville, o maior festival de dança da América Latina e considerado o maior do mundo em número de participantes. Ainda em 2026, a programação oficial do Festival de Dança de Joinville indica uma baixa representatividade de profissionais negros nos júris das competições e nas atividades pedagógicas de balé clássico.
Com base na programação oficial disponível no site do Festival, na composição da banca de jurados da Mostra Competitiva de Balé Clássico de Repertório, bem como na Programação Didática dessa modalidade (https://festivaldedancadejoinville.com.br/programacao-didatica/), que apresenta os profissionais responsáveis pelos cursos e workshops, observa-se uma presença muito reduzida de profissionais negros. Esse cenário suscita reflexões sobre a diversidade nos espaços de formação e avaliação de balé oferecidos pelo festival.
Enquanto outras modalidades de dança no festival vêm ampliando a presença de profissionais negros em posições importantes, no balé clássico a mudança parece ocorrer de maneira mais lenta. Contando com o júri de balé clássico e os professores da programação didática de balé clássico, a participação de profissionais negros não chega nem a 20% do número geral de profissionais dessa área.
Isso está relacionado à própria história do balé, construída a partir de tradições estéticas e institucionais europeias que, por muito tempo, tiveram a branquitude como referência de excelência, autoridade e legitimidade. Nesse contexto, os espaços de maior prestígio (como júris, professores, coordenações e cargos de decisão) tendem a reproduzir padrões historicamente estabelecidos, o que contribui para a baixa presença de profissionais negros nessas posições, mesmo diante da existência de artistas e docentes amplamente qualificados.
Portanto, a baixa presença de profissionais negros nesses espaços não pode ser atribuída à falta de qualificação. O Brasil possui diversos bailarinos, professores, coreógrafos e pesquisadores negros com sólida trajetória artística e acadêmica, plenamente capacitados para integrar tanto o corpo de jurados quanto a equipe docente do Festival de Dança de Joinville.
Discutir representatividade em um festival de dança não significa defender que a competência seja substituída por qualquer outro critério. Ao contrário, significa reconhecer que existem profissionais negros altamente qualificados que continuam sendo pouco lembrados para ocupar espaços de prestígio, visibilidade e tomada de decisão. Ampliar a diversidade nesses espaços fortalece o balé, tornando-o mais plural, representativo e conectado à realidade da sociedade brasileira.
Em 2024, o professor Milton Kennedy anunciou, por meio de seu perfil no Instagram, o cancelamento de sua participação no 41º Festival de Dança de Joinville. Em sua manifestação, além de apontar outras questões, também chamou atenção para a falta de diversidade racial entre os docentes do festival:
"Além disso, questiono a falta de diversidade racial no festival. Qual é a porcentagem de professoras e professores não brancos? O festival promove a diversidade e discute questões como racismo, capacitismo, classe e gênero? A instituição deveria investir mais na divulgação de profissionais não brancos? Cheguei a um ponto em que, se meu trabalho e minha trajetória profissional não são minimamente valorizados, não faz sentido continuar frequentando esses espaços (...)".
As reflexões levantadas por Milton Kennedy dialogam diretamente com a realidade observada na programação oficial do festival e reforçam a importância de ampliar o debate sobre diversidade racial nos espaços de formação e avaliação do balé clássico.
A discussão sobre representatividade não se resume à composição de um júri ou de um corpo docente. Trata-se de refletir sobre quem ocupa os espaços de legitimidade, quem é reconhecido como referência e quem tem a oportunidade de estar em posições de prestígio. Portanto, cabe questionar: por que ainda não se opta por profissionais negros do balé clássico para ocupar esses espaços? Quem decide quem é excelência no balé?
A presença de bailarinos negros e bailarinas negras de balé clássico no festival
A presença de bailarinos(as) negros(as) nas mostras competitivas de balé clássico de repertório e de balé neoclássico do Festival de Dança de Joinville tem crescido ao longo dos anos. No entanto, é possível observar nas ultimas edições que comumente nas categorias de variação de repertório vemos mais bailarinos negros do que bailarinas negras, como ocorreu nas categorias de variação masculina sênior em comparação a feminina sênior de 2026.
A diferença na representatividade entre bailarinos negros e bailarinas negras nos principais festivais de dança e nas grandes companhias de balé pode ser explicada por uma combinação de fatores históricos, sociais e estéticos.
Embora todas as pessoas negras enfrentem o racismo, as mulheres negras também lidam com padrões de feminilidade e beleza que, durante muito tempo, privilegiaram uma imagem de bailarina branca, associada ao ideal de feminilidade consolidado durante o balé romântico de mulher frágil, delicada e ser etéreo. As mulheres negras, por sua vez, não são vistas como representantes do ideal de delicadeza, leveza e fragilidade associado à bailarina clássica, sendo frequentemente consideradas fortes demais, musculosas demais, sensuais demais e fora do padrão estético dominante.
Dessa forma, os estereótipos raciais frequentemente entram em conflito com o modelo de feminilidade construído dentro do balé clássico, restringindo ainda mais as oportunidades para mulheres negras. Essa questão influencia diretamente na experiência das bailarinas negras no balé clássico, desde a entrada até a permanência.
Historicamente, homens negros foram frequentemente associados à força, à potência física e à virilidade. Esses estereótipos são racistas e reducionistas, mas podem ter influenciado a forma como alguns diretores, professores e até o público percebem esses bailarinos, associando-os mais facilmente a qualidades valorizadas no balé, como a força para as elevações no pas de deux e nos grandes saltos e na ideia de presença cênica masculina idealizada do balé. Porém, isso não significa igualdade de oportunidades. Por exemplo, em muitos contextos, um bailarino negro pode ser reconhecido por suas capacidades físicas e, ainda assim, ser preterido para papéis como o de príncipe, tradicionalmente vinculados a um ideal estético de um homem branco, além de poder passar por outras situações de preconceito e discriminação no balé clássico.
Coreografia INKIETA - Categoria solo neoclássico júnior
Nesta edição, na mostra competitiva de balé neoclássico, um dos trabalhos que merecem ser destacados é a coreografia INKIETA, de Letícia Karin, interpretada pela bailarina Luana Ribeiro, da Lapidari Companhia de Dança. A obra, que ganhou colocação de 1° lugar na categoria neoclássico júnior, chama atenção não apenas por sua qualidade artística e técnica, mas também por ampliar a visibilidade de artistas negras em um espaço onde sua presença ainda é minoritária.
INKIETA é o encontro entre uma mulher negra na criação e uma jovem bailarina negra na interpretação, representando a continuidade de trajetórias, referências e possibilidades para as novas gerações.
Luana também conquistou o 2° lugar na categoria de variação feminina júnior.
Referências:
O Prix de Lausanne enfrenta uma onda de indignação devido à composição do júri. Disponível em: https://www.swissinfo.ch/eng/culture/prix-lausanne-faces-storm-of-indignation-over-jury-make-up/47334950 Acesso em 21 de jul de 2026.
Programação didática do festival de dança de Joinville. Disponível em: https://festivaldedancadejoinville.com.br/programacao-didatica/ Acesso em 04 de agosto de 2026.
Calixto, N. (2024). Mulheres pretas no balé clássico: propondo práticas pedagógicas antirracistas. O Mosaico, 19(2), 1–29. https://doi.org/10.33871/21750769.2024.19.2.9227




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