Identidade e território: o que acontece quando as Danças Urbanas são institucionalizadas?

Como o próprio nome sugere, as danças urbanas reúnem diferentes estilos de dança que se desenvolveram, em grande parte, em festas, clubes, ruas e espaços comunitários nos Estados Unidos, a partir das experiências, da criatividade, da resistência e das identidades de comunidades negras e latinas. Muitos dos estilos ganharam força entre as décadas de 1960 e 1980.
Nessa definição, é importante ressaltar que:
“É comum encontrarmos inúmeras terminologias diferentes para se referir à cultura Hip Hop e para esclarecer todo tipo de confusão em relação a isso, é primordial apresentar e diferenciar cada uma delas. O termo Hip Hop se refere à cultura por inteiro, ou seja, é a junção da música, do graffiti, da dança e todos os elementos que a constitui. (...) Danças Urbanas seria o vocabulário mais apropriado para dirigir-se aos variados estilos de dança tanto os que originaram das festas ao ar livre, como, os que surgiram em outros lugares ou até mesmo aquelas que não sofreram influência do Hip Hop”. (Reis, 2018, p. 32-33).
Ao longo das décadas, as danças urbanas ligadas a cultura Hip Hop ultrapassaram seus espaços de origem e passaram a ocupar outros ambientes, como escolas e companhias de dança, festivais competitivos e diferentes meios de comunicação.
Mas essa expansão também traz uma questão importante: como levar manifestações culturais que nasceram e se desenvolveram em contextos comunitários por grupos minoritários para ambientes institucionais sem descaracterizá-las ou perder de vista suas origens, seus valores e as pessoas que ajudaram a construí-las?
Para discutir essa questão, convidamos nosso coordenador artístico e professor de danças urbanas Felipe Araujo.

O que pode ser perdido quando as danças urbanas ligadas a cultura Hip Hop são retiradas do contexto social e cultural em que se desenvolveram?
Prof. Felipe: Com o alcance mundial atual da cultura Hip Hop, é importante ficarmos atentos ao que se é apresentado. Trazer as danças urbanas para as telas e para os palcos é incrível demais pois pode trazer visibilidade, o problema começa quando se descaracteriza ou ganha novos nomes, apagando toda a história e luta que vem por trás. Hoje temos grandes eventos e competições como o Red Bull BC One, Red Bull Dance Your Style e o World Hip Hop Dance Championship que buscam os formatos antigos de Batalha e preservam a identidade das danças iniciadas nas ruas, trazendo prestígio para bailarinos profissionais que dedicam suas vidas em estudos e práticas das danças urbanas e da cultura Hip Hop em si.
Quais são os benefícios e os conflitos gerados pela popularização das danças urbanas?
Prof. Felipe: É de um certo incômodo ver alguns trabalhos serem apresentados fora do contexto da cultura Hip Hop, mesmo que utilizem claramente elementos da cultura. Lembro-me de Madonna na década de 90, mostrando em seu vídeo-clipe da música intitulada “Vogue” a cultura Ballroom com suas vertentes e formatos, com muito respeito e fidelidade às grandes Houses e com bailarinos da cena Ballroom em seu vídeo-clipe. Esse zelo e preocupação em respeitar é de suma importância para o entendimento de que se é preciso respeitar o que não pertence a sua vivência, além de não mostrar apropriação a partir de como se é exibido e mostrado. Atualmente temos grandes companhias de danças que bebem das vertentes urbanas, modificam e utilizam nomeando como dança contemporânea. Minha opinião particular parte de que não é um problema a utilização e variação dos movimentos a partir da dança criativa e laboratorial, o problema está em não deixar nítido e assumir as danças urbanas em uso quando se divulga um espetáculo ou no programa. Temos grandes profissionais batalhando dia a dia para legitimar sempre e manter a memória viva das pessoas que criaram tudo isso, então acho importante citar suas fontes de estudo para o desenvolvimento desses espetáculos a partir do uso das vertentes.
Como você trabalha/desenvolve essa questão na sua atuação docente?
Prof. Felipe: Enquanto minha formação, nos meus anos de estudos, tive profissionais como Marcos Azevedo diretor do Urban Charme e Henrique Marks que sempre se preocuparam em contar a história além da vertente, nomear a movimentação apresentada e de forma divertida, explicar a linha histórica das danças urbanas de acordo com a matéria que estávamos estudando. Busco sempre reproduzir essa metodologia de forma que se perpetue a história, o respeito e conhecimento do que se é dançando. Em minhas aulas atuais, a movimentação tem nomenclatura, curiosidades sobre a vertentes e uso musical de Hip Hop. Me atualizo sempre fazendo aulas com profissionais da área e trago tudo isso para sala de aula, fazendo assim uma mistura do antigo e do atual, me preocupando e tendo o cuidado de mostrar grandes artistas da cena passada e da nova.
Felipe Araujo começou seus estudos na dança em 2006, se formando pelo Espaço Cultural de Arte e Dança do Rio de Janeiro - Profissionalizante de Ballet Clássico e outras modalidades como: Jazz dance, Afro dance, Dança Moderna, Danças Urbanas. Tem seu registro profissional (DRT) de artista/bailarino em Jazz. Foi bailarino da Cia Laboratório de Arte Negra em Movimento (Estudo de Dança Afro Brasileira e Dança Contemporânea) de 2011 a 2019. Já fez workshops com bailarinos da Beyoncé como: Bryan Tanaka, Dana Foglia, Danielle Polanco, Ashley Everett e Hannah Douglass. Ministrou wokshops e foi jurado do Festival de Dança Batalha no Salto em Macapá - AP. Também ministrou workshops de Salão Queer (Método agênero tendo como partida condutor e conduzido) e Stilleto no projeto Labqueer em Campos dos Goytacazes/RJ. Em 2009 participou do programa de televisão “Se ela dança, eu danço” no SBT. Dançou no Time WELCOME CERIMÔNIAS das Olimpíadas 2016. Trabalha com Danças Urbanas, Stilleto e Dança Mix na Escola. Participou como bailarino em comissão de frente de escolas de samba desde 2013 até atualmente. Desde de 2020 vem ganhando premiações com coreografias de Danças Urbanas em festivais dentro e fora do município do Rio de Janeiro.
Referências Bibliográficas:
REIS, Brenda Moreira de Paula. Hip Hop e Danças Urbanas: reflexões acerca da relação entre a filosofia da sensação e a transfiguração desta cultura. 2018. Dísponivel em: https://repositorio.unicamp.br/acervo/detalhe/1081654




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