top of page

Dança e alta performance: O balé clássico é um esporte?

  • Foto do escritor: Nayara Calixto
    Nayara Calixto
  • há 5 dias
  • 4 min de leitura

Na última aula de Teoria e Balé de Repertório da Balleto, ministrada por mim e pela Profa. Isadora Almeida, foi levantada a discussão sobre o balé ser ou não um esporte. No primeiro momento, ao perguntar às alunas se elas entendiam o balé como um esporte, recebemos respostas indecisas. Mas, com diálogo e pensamento crítico, em grupo, concluímos que, como bailarinas, precisamos nos preparar fisicamente de forma semelhante a um atleta. No entanto, primeiramente, somos artistas e o balé clássico é uma arte.

À vista disso, com a intenção de levar esse debate para além da sala de aula, trouxemos a discussão para o blog.


A discussão sobre o balé ser ou não um esporte divide opiniões. É fato que, fisicamente, o balé clássico exige tanto quanto qualquer outro esporte. Por exemplo, um estudo realizado em 2008 pela Universidade de Hertfordshire (Reino Unido) comparou bailarinos profissionais do Royal Ballet com nadadores da equipe olímpica britânica. Nesse estudo, os bailarinos tiveram melhores resultados em várias medidas de aptidão física avaliadas.


O balé clássico exige muito do corpo. Bailarinos, principalmente os profissionais, precisam se preparar como atletas para melhorar o desempenho, evitar lesões e ter uma carreira mais longeva. Por isso, há alguns anos, no campo da dança, discute-se a importância de os bailarinos buscarem um treinamento físico complementar para além das aulas de balé, como musculação, pilates e/ou outras atividades que visam a uma preparação física específica para o balé clássico. Apesar disso, colocar o balé clássico apenas como um esporte retira seu caráter artístico e expressivo, posicionando-o como uma prática que preza somente pelo virtuosismo técnico. Isso anula a própria história do balé e sua identidade ligada à arte, visto que a questão do apreço excessivo ao virtuosismo já foi debatida há séculos.


A dança do rei Luís XIV, figura muito importante para a história do balé, ficou presa às formas, às regras e ao exibicionismo técnico, levando os bailarinos a um espetáculo incessante de exibição em inúmeras entrées (Ballet d’Entrée), desconectadas da ação dramática da obra.


Noverre, outro grande nome na história da dança, propôs uma reforma em relação ao chamado Ballet d’Entrée: o Balé de Ação. Com o balé de ação, Noverre defendia que a dança tivesse independência artística e dramática, sendo capaz de contar uma história por meio do movimento, valorizando a expressividade também por meio das pantomimas e expressões faciais.


Logo, pensar o balé apenas como um esporte, o que leva a exaltação da virtuosidade técnica e desconsideração de outros requisitos essenciais em um(a) bailarino(a), anula a própria história e evolução do balé. Acima de tudo, o balé clássico é uma arte, e bailarinos são artistas. O balé não depende de competições para legitimação profissional e conta com critérios avaliativos mais subjetivos. Em meio a tudo isso, há o fato de que uma apresentação de balé deve proporcionar a quem assiste uma experiência estética: um mergulho em uma história, uma vivência sensível, a emoção. Esta última não é mensurável para fins de avaliação.


Outra questão válida a ser analisada nesse debate são os festivais competitivos de dança. Eventos como o Prix de Lausanne mostram que existe avaliação técnica, ranking e critérios objetivos. Essas são características típicas do esporte. Mas calma: festivais competitivos não são “ruins”; eles podem trazer oportunidades para os bailarinos e reconhecimento para as escolas. No entanto, alguns acabam incentivando uma lógica esportiva na dança, premiando "quem gira mais", "quem salta mais", "quem tem o développé mais alto", direcionando, naturalmente, o foco para o virtuosismo técnico. Isso é algo que a comunidade da dança deve se atentar, pois pode colocar a técnica como centro, meio e fim, enquanto a expressão, a interpretação, a musicalidade, a qualidade de movimento e a “limpeza” técnica ficam em segundo plano.


Essa questão também impacta diretamente o processo de formação de bailarinos e bailarinas. Em vez de formar artistas-cidadãos, as aulas e os métodos podem passar a focar no que “ganha prêmio”. Diante disso, como fica a formação humana e cidadã? A formação artística? Esses fatores devem ser considerados na formação de bailarinos.


Festivais competitivos avaliam a técnica de forma pontuável. Porém, na dança, o processo é muito importante. Como professora, tenho o privilégio de acompanhar e ver de perto processos artístico-pedagógicos muito bonitos que acontecem na sala de aula a partir de diálogos, trocas, repetições e um bom trabalho técnico. Na dança, a sala de aula também pode ser cena, pode ser palco.


Há quem defenda que o balé se transforme em uma modalidade olímpica, argumentando que a competição não elimina a dimensão artística, só impõe regras específicas e parâmetros. Entretanto, é inegável que isso impactará diretamente na forma como o balé clássico é pensado e praticado enquanto arte, trazendo à tona questões que já foram problematizadas séculos atrás.

Afirmar se o balé é um esporte ou não se trata de refletirmos qual é a ideia de balé que temos para nós mesmos e qual balé queremos construir no futuro. Ainda que um/a bailarino/a precise ter um preparo físico de um/a atleta, o balé reafirma-se, acima de tudo, como uma forma de arte do corpo que proporciona uma experiência estética sensível para quem pratica e assiste.


 
 
 

Balleto Escola de Dança

Rua Coronel Cota, 56 - Méier, Rio de Janeiro - RJ

(21) 96841-2063

(21) 3594.6019 

bottom of page