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8 de Março: A evolução do papel da mulher na Dança

  • Foto do escritor: Nayara Calixto
    Nayara Calixto
  • 3 de mar.
  • 4 min de leitura

Apesar de na atualidade a dança ser comumente associada às mulheres, até o final do século XVIII os homens eram símbolos do balé e protagonistas nos palcos na França. Inclusive, os papéis femininos eram representados por homens caracterizados como mulheres. Esse é um reflexo da maior quantidade de homens dançando na época, lembrando que o balé sempre esteve associado ao poder. As questões de gênero também sempre estiveram ligadas ao poder.


Assim como na sociedade, na dança foram necessárias diversas transformações culturais, políticas e sociais para as mulheres alcançarem os holofotes e adentrarem posições de liderança. Dessa forma, a história da dança também é a história da transformação do papel da mulher na sociedade.


Como trazido anteriormente, nos séculos XVII e VXIII, os homens dominaram os palcos do balé. Depois, no século XIX, com o balé romântico e a criação da sapatilha de ponta, as mulheres passaram a ocupar o centro do palco, porém como um símbolo etéreo, personagens sobrenaturais, quase inalcançável, como as willis (Giselle) e sylphides (La Sylphide). Embora as mulheres tivessem destaque nos palcos, ainda era um protagonismo moldado pelo olhar masculino.


Quando estudamos a história da dança, encontramos diversas figuras reconhecidas como fundamentais para o desenvolvimento dessa arte. Muitas delas são homens, como Luís XIV, Pierre Beauchamp, Jean-Georges Noverre, George Balanchine, Sergei Diaghilev, entre outros. Esse cenário começa a se transformar com o surgimento da Dança Moderna, um campo marcado de maneira decisiva pela atuação e pela criação de mulheres.


Nesse contexto, as mulheres assumiram protagonismo ao questionar não apenas as técnicas e regras corporais estabelecidas, mas também o próprio conceito de dança, ampliando temas e possibilidades expressivas. No entanto, mesmo antes desse período, as mulheres já estavam presentes em processos de transformação, propondo novas perspectivas e contribuindo de forma significativa para a construção e evolução da dança. Mas, os trabalhos de mulheres ainda são frequentemente apagados ou minimizados, tanto dentro quanto fora desse campo artístico.


Para algumas pessoas, a discussão sobre desigualdade de gênero pode parecer repetitiva. Contudo, ela permanece necessária diante das desigualdades que persistem. Por exemplo, ainda hoje, as mulheres recebem, em média, salários inferiores aos dos homens. Essa problemática se agrava quando consideramos a dimensão racial, pois mulheres negras costumam receber menos do que homens não negros e de mulheres brancas, evidenciando, mais uma vez, que gênero e raça se entrelaçam na produção das desigualdades.


Pensando nesse apagamento feminino na história da dança, trouxe, de modo breve, algumas mulheres que contribuíram/contribuem para o desenvolvimento da dança:


Marie Sallé (1707-1756): ajudou a criar o Balé de Ação. Sallé é comumente mencionada na história da dança em função da sua carreira como bailarina, mas suas contribuições para o Balé de Ação e para a técnica clássica são pouco discutidas.


Isadora Duncan (1877-1927): precursora da dança moderna, defendendo uma dança mais livre e expressiva. Duncan não criou uma técnica sistematizada, como a de Martha Graham, mas propôs princípios e parâmetros estéticos que fundamentam a dança moderna.


Bronislava Nijinska (1891-1972): foi uma das poucas mulheres a coreografar para os Ballets Russes, companhia revolucionária dirigida por Sergei Diaghilev. Ela também era irmã do famoso bailarino Vaslav Nijinsky. Por muito tempo, sua importância foi ofuscada pela fama do irmão,  mas construiu uma identidade artística própria.


Katherine Dunham (1909-2006): importante bailarina, coreógrafa, ativista e antropóloga afro-norte-americana. Pesquisou danças afro-caribenhas e é um grande nome da dança moderna norte-americana. Inclusive, a primeira lei contra discriminação racial no Brasil foi criada em função de uma ataque racista que Katherine sofreu no país.


Mercedes Baptista (1921-2014): primeira bailarina autodeclarada negra a integrar o corpo de baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. É pioneira na construção de uma dança moderna brasileira de matriz afro-brasileira, com a Técnica de Dança Afro-Brasileira de Mercedes Baptista. 


Pina Bausch (1940-2009): revolucionou a dança contemporânea com a dança-teatro (Tanztheater).


Lia Rodrigues (1956): bailarina, coreógrafa e fundadora da Lia Rodrigues Companhia de Danças, com sede no complexo da Maré-RJ. Conhecida por uma dança crítica que traz questões políticas e sociais para a cena.


Atualmente, mulheres dirigem companhias e escolas, criam métodos, produzem espetáculos, ocupam espaços acadêmicos de dança e são maioria em diversos ambientes artísticos. Devemos isso às mulheres citadas e a muitas outras que tiveram seus nomes apagados da história da dança.


Mais do que celebrar conquistas, o dia 8 de março é sobre reflexão da luta contínua das mulheres por igualdade de direitos e contra a violência e o machismo. Essa data, acima de qualquer coisa, é sobre o direito à vida das mulheres.

Mais do que técnica, a dança por mulheres carrega história, apagamentos, luta, resistência e liberdade. A luta das mulheres por direitos e igualdade, dentro e fora da dança, continua e a Balleto Escola de Dança está junto nessa luta.


Indicação - Se você se interessou e quer conhecer mais histórias de mulheres na dança, indico o livro Oriri: Uma viagem pela história da dança do século 18 e 19, da autora Bruna Meoti, disponível em: https://www.scribd.com/document/663499679/Oriri-Uma-Viagem-Pela-Historia-da-Danca-do-Seculo-18-e-19

Inclusive, esse livro foi uma referência utilizada para a escrita desse post.

 
 
 

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