A influência das redes sociais na construção de conceitos sobre dança na atualidade
- Nayara Calixto

- há 2 dias
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Há alguns anos, as redes sociais vêm influenciando de forma significativa a maneira como a dança é percebida na sociedade atual. O grande “boom” desse fenômeno ocorreu durante a pandemia, período em que as pessoas precisaram permanecer em casa e encontraram nas redes sociais uma espécie de refúgio para manter contato com o mundo externo e preservar suas relações interpessoais. Nesse contexto, coreografias curtas e Trends (conhecidas como “dancinhas”) em plataformas como TikTok e Instagram passaram (e ainda passam) a incentivar milhares de pessoas a reproduzirem passos de dança em suas casas.
Discutir a relação entre redes sociais e dança levanta ao menos duas questões importantes. A primeira diz respeito à ideia de “acessibilidade”. De certo modo, as redes sociais contribuíram para tornar a dança mais acessível, já que qualquer pessoa com um celular e acesso à internet pode aprender e reproduzir os movimentos. Ao falar em acessibilidade, me refiro ao fator socioeconômico, considerando que o ensino de modalidades que passaram por um processo de “academização”, como balé clássico, jazz, sapateado e até mesmo as danças urbanas, ainda apresentam um caráter elitizado no Brasil. Com isso, nem todas as pessoas possuem condições financeiras para frequentar academias/escolas especializadas.
Outro fator que dificulta a democratização do acesso à dança no nosso país é o fato de ela ainda não estar plenamente consolidada nas escolas de educação básica. Caso o ensino da dança, em seu caráter artístico, fosse efetivamente legitimado nessas instituições com a presença de professores licenciados em dança, especialmente nas escolas públicas, o acesso a essa linguagem artística por diferentes classes sociais seria mais amplo. A criação de projetos sociais que oferecem aulas gratuitas de danças representa um avanço importante no acesso à dança por pessoas que pertencem a classes sociais mais baixas.
A segunda questão sobre dança e redes sociais diz respeito à possível banalização da dança enquanto arte e do papel do professor de dança. É relevante destacar que nem toda dança possui função artística. A dança é uma forma de expressão humana ampla, que pode assumir diferentes funções, como terapêutica (dançaterapia) e voltada ao condicionamento físico (zumba e fit dance).
As chamadas “dancinhas” das redes sociais são baseadas majoritariamente na reprodução de movimentos e têm como principal objetivo o entretenimento e a recreação. Por isso, não podem ser consideradas, em sua maioria, como Dança/Arte, pois não necessariamente proporcionam uma experiência estética sensível e não buscam estabelecer uma comunicação expressiva com o público, seja para promover reflexão crítica e/ou emoção.
É fundamental reconhecer que qualquer pessoa pode dançar. No entanto, a formação de um bailarino-artista exige estudo e aprofundamento que não são plenamente desenvolvidos apenas por meio da reprodução de vídeos curtos.
Nesse contexto, surge um outro questionamento: se é possível aprender dança por meio das redes sociais, qual seria o papel do professor? A resposta pode ser pensada por analogia: assim como não confiamos nossa saúde a um profissional sem formação adequada, não devemos supor que qualquer pessoa esteja apta a ensinar dança.
A dança é uma área de conhecimento como qualquer outra, é autônoma e possui fundamentos próprios. Hoje, no Brasil, existem diversos cursos de graduação em dança (Bacharelado e Licenciatura), Mestrado, Doutorado e outros cursos técnicos e livres. Ensinar dança é algo que exige formação e especialização.
Apesar disso, de modo geral, a dança ainda é vista por muitos como uma prática que não exige estudo ou formação específica, o que contribui para a desvalorização do professor de dança. Mas, um profissional qualificado desempenha um papel fundamental, atuando como mediador/facilitador do conhecimento, orientando o aprendizado, corrigindo, adaptando conteúdos e estimulando o pensamento crítico.
As redes sociais, por sua vez, podem desempenhar um papel positivo ao ampliar o acesso à dança e servir como um convite. Por exemplo, uma pessoa pode ter o primeiro contato com a dança pelas redes sociais e depois procurar uma escola/academia, projeto social ou até uma graduação em dança.
As redes sociais também permitem que professores divulguem seus trabalhos, compartilhem aulas e dicas técnicas. Ainda assim, estas devem ser compreendidas como um complemento, e não como substitutas do ensino presencial com professores qualificados. O trabalho dos professores permanece insubstituível para uma formação consistente e significativa na dança.



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