O que é dança contemporânea? Definições e mitos
- Nayara Calixto

- há 4 horas
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Não é de hoje que se questiona o que é dança contemporânea. De fato, existem múltiplas definições, concepções e significados para esse campo, pois, embora esteja inserida em escolas e outros espaços formativos, a dança contemporânea não passou por um processo de codificação sistemático como o balé clássico, por exemplo. Porém, isso não significa que a dança contemporânea não possua nomenclaturas próprias em determinados contextos.
Por essa razão, talvez seja mais adequado pensarmos em danças contemporâneas, no plural, reconhecendo a diversidade de práticas, estéticas e modos de criação que coexistem nesse campo.
No entanto, não se pode concluir que “qualquer coisa seja dança contemporânea”, porque liberdade estética e criativa não elimina a necessidade de rigor. E, mesmo não havendo uma técnica única na dança contemporânea, existem elementos recorrentes em diferentes aulas, como o trabalho de técnica de chão, a improvisação, a investigação de gestos cotidianos enquanto dança, o contato e improvisação, e a exploração do peso, da gravidade e do espaço.
Dança contemporânea 1° e 2° ano - sexta-feira às 17h - profa. Marina
Ainda circulam definições simplistas sobre o que seria a dança contemporânea, como: “a dança contemporânea não possui técnica”. Em relação a essa ideia, é importante compreender, antes de tudo, que é equivocado afirmar que a dança contemporânea não possui técnica. O corpo, por si só, é técnico e também um meio técnico. Assim, não é possível dizer que uma dança seja desprovida de técnica; o que pode ocorrer é a ausência de uma codificação única e padronizada, compartilhada da mesma maneira em diferentes contextos e lugares do mundo.
“O contemporâneo na dança reflete uma visão particular de mundo e não se restringe a um único modo de composição no corpo e na cena. Tampouco carrega a missão unívoca de negar uma técnica ou movimento artístico qualquer. Se ocupa em perguntar, conhecer e escolher. Tal liberdade criativa permite desde a apropriação da poética etérea da dança clássica, à qualidade expressionista da dança moderna, à variedade das danças populares, de salão e de rua, até o uso de gestos cotidianos e a própria recusa do movimento enunciada pela dança pós-moderna americana nos anos 60. A função conservada se refere à de questionar, e até mesmo demolir, suas próprias categorias de enunciação e elementos compositivos. Desfazer a si mesma. Não cansa de interrogar e criticar seus contextos: arte e vida. Localizada num território sem leis fixas, modelos e convenções imutáveis, a dança contemporânea desenha linhas que antes de dividir, apontam outros caminhos de pesquisa e significação” (Xavier, 2011, p. 35).
Para definir o que é Dança Contemporânea, convidei as professoras da modalidade na Balleto - Marina Bona e Marisa Marttin.
Professora Marina Bona
Algo que considero muito interessante nessa linguagem é sua capacidade de dialogar com questões contemporâneas da sociedade. Não que outras técnicas de dança não tenham essa possibilidade, mas, pelo fato de a dança contemporânea se caracterizar pela abertura a diferentes concepções e modos de criação, esse aspecto tende a aparecer de maneira mais evidente. Assim, a cena pode se constituir como um espaço de denúncia, de reflexão e de questionamento, no qual o corpo expressa conflitos, experiências e tensões do tempo presente.
Se na dança contemporânea existem diferentes concepções e técnicas, como ocorre o julgamento em festivais competitivos?
Existe uma crítica que aparece cada vez mais entre bailarinos, coreógrafos e grupos independentes sobre a dança contemporânea em festivais competitivos: a ideia de que alguns jurados tratam a própria visão como a única forma legítima de dança contemporânea.
Essa é uma questão importante porque a dança contemporânea não cabe em definições rígidas. Ela surgiu como um espaço de pesquisa e liberdade criativa. Por isso, é contraditório quando um festival/jurado valoriza apenas trabalhos que seguem uma estética específica.
Mas, novamente: isso não significa que “qualquer coisa seja dança contemporânea”, pois liberdade estética e criativa não elimina a necessidade de rigor.
O problema não está em existir preferência estética. Todo jurado possui referências, trajetórias e visões de arte. A questão começa quando essa preferência vira regra universal dentro de competições que deveriam acolher diversidade criativa. Afinal, se toda dança contemporânea precisar parecer igual para ser aceita, ela não passaria a funcionar como um novo padrão engessado?
Só de observar as aulas das nossas professoras já dá para ter uma ideia de quanto a dança contemporânea é diversa, né? Até dentro de uma mesma instituição. É nessa relação entre rigor e diversidade que a dança contemporânea acontece na Balleto!
Referências:
MAUSS, Marcel. Sociologia e antropologia. São Paulo: Cosac Naify, 2003.
XAVIER, Jussara Janning. O QUE É A DANÇA CONTEMPORÂNEA?. O Teatro Transcende, [S. l.], v. 16, n. 1, p. 35–48, 2011. DOI: 10.7867/2236-6644.2011v16n1p35-48. Disponível em: https://ojsrevista.furb.br/ojs/index.php/oteatrotranscende/article/view/2500. Acesso em: 19 maio. 2026



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