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Origem e reflexões sobre o Jazz Dance - Entrevista com a professora e pesquisadora FlaPê

  • Foto do escritor: Nayara Calixto
    Nayara Calixto
  • há 3 dias
  • 6 min de leitura

No dia 30 de abril, comemoramos o Dia Internacional do Jazz. Como sempre discutido aqui, é muito importante estudar, reconhecer e pensar sobre a história e desenvolvimento da dança que dançamos. Por isso, hoje aprofundaremos a história do Jazz Dance, refletindo sobre sua estruturação e seu ensino no Brasil. Para isso, teremos a participação da professora e estudiosa do Jazz, FlaPê.


  • Qual a origem do Jazz Dance e quais influências culturais contribuíram para seu desenvolvimento?

Marca-se, aproximadamente, o ano de 1900 como o início do reconhecimento do jazz como um estilo musical. A cidade de Nova Orleans, no Estado de Luisiana,  é considerada o berço do jazz, por ter sido o local onde a banda de jazz surgiu como fenômeno cultural.

Resultado de uma fusão de influências no contexto norte-americano, tanto a música jazz quanto o Jazz Dance têm raiz africana. A professora FlaPê explica que: “O Jazz Dance é parte de uma cultura que vem da expressão de visão de mundo, através do canto, poesia e fé, colocada também em um lugar de religiosidade. Majoritariamente organizado por pessoas negras, nos Estados Unidos, têm influência direta e indireta de manifestações indígenas e de elementos da cultura europeia, como o piano e as danças de promenade”.

Assim, o jazz surge como uma dança social muito ligada à música e a improvisação.


  • Quais padrões de movimento corporal e características expressivas estão associados ao que se entende como jazz original?

FlaPê explica que: “Apesar das influências indígenas e europeias, o que faz o Jazz ser Jazz, vem da cultura africana, que nos Estados Unidos se encontra(va) em diáspora forçada por conta da escravidão. Com isso, tudo o que se identifica jazz, tem similaridade com diversas danças africanas, principalmente do Oeste de África. Os pés são mais aterrados, os joelhos raramente ficam em hiperextensão, o corpo tem uma leve inclinação para frente, o ritmo é presente nas movimentações, onde muitas delas começam pelos quadris”.


Essa explicação da profa. FlaPê me leva a uma reflexão: Se aquilo que caracteriza o jazz (o que podemos compreender como authentic jazz, conforme explica a professora Flávia) envolve um corpo aterrado com balanço, pulso, movimentos de quadril e o trabalho de pernas e pés (footwork), como o jazz dance praticado hoje no Brasil (e em outras partes do mundo) passou a incorporar características como joelhos em hiperextensão e passos como grand battement, développés e giros do balé clássico?

O jazz é uma dança que passou por um processo de institucionalização. Em outras palavras, trata-se de uma dança social que foi transformada em um estilo a ser ensinado em escolas/academias de dança. Nesse processo, sofreu influências do balé clássico e de padrões estéticos europeus, sendo, muitas vezes, não reconhecida como uma dança criada por pessoas negras. Nesse contexto, é importante refletir que o jazz praticado hoje nos ambientes de ensino da dança no Brasil apresenta, em grande parte, forte influência da técnica do balé clássico. Para muitas pessoas, inclusive, o balé é considerado a “base” do jazz. No entanto, como mencionado anteriormente, o jazz é uma dança social negra, profundamente ligada aos acontecimentos sociais de seu contexto de origem e com forte relação com a música jazz. Dessa forma, o authentic jazz não tem como base o balé clássico e constitui, por si só, uma técnica de dança com conteúdos próprios.


Analisando o ensino e a prática do jazz nos ambientes educativos de dança na atualidade, a professora FlaPê diz que: “Penso que de uns dois anos pra cá, mais gente tem tomado consciência da importância do conhecimento da história do Jazz e do protagonismo negro dessa dança. Entretanto, a grande maioria para por aí, fica só na teoria como um aval para dizer que tem uma atitude de reparação em relação ao jazz, que hoje está distante de sua forma original, não porque seguiu se transmutando de maneira vernacular, mas pela apropriação ter tirado várias de suas principais características. Acredito que muita gente queira mudar o próprio posicionamento em relação ao jazz, mas não sabe por onde começar ou tem medo de perder seus empregos. Mas observo também, que muitos estão confortáveis em continuar propagando e vendo um jazz sem base nele mesmo, por comodismo financeiro-social, ou até mesmo, por ego, na manutenção de status quo e de uma hierarquia no mercado da dança”.


Ao avaliar o cenário do Jazz Dance no Brasil hoje, considerando sua difusão, valorização e desafios, FlaPê diz que: “Falar sobre o Jazz no Brasil, no sentido de dialogar sobre a cultura do Jazz, é lidar com verdades relativas. A história sempre será fatídica, independente da perspectiva de quem está narrando. O Jazz é uma dança social, criada e disseminada por pessoas negras, com influências indígenas de qualidade e resistência e europeia em consequência de opressão. Mas acontece, que quando chegou aqui, veio totalmente enviesado, com a crença de fazer parte, de alguma forma do ballet clássico, ou numa característica mais de show-business. E para muitos que tinham esse conhecimento histórico, a forma original de dançar jazz, não era relevante, boa ou pronta o suficiente.

Então, para muitas pessoas da dança, descobrir que sua dança jazz está mais próxima de qualquer outra coisa a ser nomeada, do que do jazz, pode confundir dizer que não existe verdade na dança dessa pessoa. Como se por anos em que ela se expressou em nome do jazz, fosse uma inverdade. Com essa premissa, vejo que sua difusão ainda está muito dependente do sistema, presa ao capitalismo. A valorização acaba sendo reduzida a quem você agrada, como o que você faz ou fala; e o principal desafio é quebrar essas barreiras e conseguir disseminar um jazz que seja coerente com a sua história”.


Professora FlaPê


A partir das questões levantadas pela profa. FlaPê, penso que a questão central está no fato de o jazz ter sido atravessado por uma técnica de dança frequentemente entendida como “superior” ou como a “base” de todas as outras: o balé clássico. Ainda hoje, é comum ouvirmos de professores de dança afirmações como “o balé clássico é a base de todas as danças” ou “quem dança balé dança qualquer outra técnica de dança”. Essas ideias estão diretamente relacionadas à forma como o balé se estruturou historicamente em relação ao poder e ao eurocentrismo. 

Nesse sentido, é importante refletir: a dança existe desde o surgimento da humanidade e o balé começou a se estruturar da forma como o conhecemos hoje só em 1661, com a criação da primeira escola oficial na França. Diante disso, como ele poderia ser considerado a base de todas as danças?

Enquanto o balé se consolidava, diversas outras danças se desenvolveram ao redor do mundo sem qualquer relação com ele, como as danças tradicionais asiáticas e africanas. Como exemplo próximo, podemos citar as danças dos povos originários do Brasil e, mais tarde, dos povos africanos trazidos à força e escravizados, que também incorporaram outras formas de dança no território sem qualquer ligação com o balé clássico. Ainda mais próximo, podemos refletir: O balé é a base do sapateado? Das danças urbanas? Da dança do ventre? Não! E essas danças não são "menos técnicas" ou "menos importantes" do que o balé clássico e possuem técnica e códigos próprios.

Atualmente, o jazz dance apresenta múltiplas vertentes, entre as quais podemos citar o jazz lírico e o jazz moderno. É possível que o balé clássico funcione como base para algumas dessas vertentes em contextos específicos. No entanto, não deve ser generalizado nem confundido com a origem do jazz. É fundamental reconhecer a origem do jazz dance para que sua prática atual considere seus elementos fundamentais e, a partir deles, proponha inovações. 


  • FlaPê é artista da dança, com especialização em jazz e estudiosa de tap dance. Bacharela em Dança pela Universidade Estadual do Paraná, construiu sua trajetória como pesquisadora, professora, dançarina, coreógrafa e crítica de dança, transitando entre diferentes linguagens e expressões do movimento. Atualmente, integra o Coletivo Malê, o That Swing Dance Company e o SP House, além de colaborar com projetos como o Waacking Sessions Brasil. Sua pesquisa artística busca o diálogo entre tradições do jazz dance e outras danças urbanas, explorando o cruzamento entre memória, performance e cultura.


Referências: História social do jazz segundo Hobsbawm. Revista de Estudos Universitários - REU, Sorocaba, SP, v. 31, n. 1, 2016. Disponível em: https://periodicos.uniso.br/reu/article/view/2635. Acesso em: 7 abr. 2026.


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