Sapateado/Tap Dance: dança ou música?
- Nayara Calixto

- há 12 minutos
- 4 min de leitura
No sapateado americano, o Tap Dance, são utilizados sapatos com chapas de metal na sola, na parte do metatarso e do calcanhar, que, em contato com o chão, normalmente de madeira, produzem sons, fazendo com que os pés atuem como um instrumento de percussão a partir do movimento dançado. Ou seja, pelo movimento do corpo, o som e a dança acontecem simultaneamente e os sons gerados pelos movimentos complementam a música e podem ser a própria música. Então, afinal, o sapateado é dança ou música?
Para aprofundar a relação entre música e dança no sapateado, em comemoração ao Dia Internacional do Tap, convidamos Victória Napoli - artista, professora e pesquisadora da área. Mas antes, faremos uma breve contextualização histórica.
25/05 - Dia Internacional do Tap
O Tap Dance é uma arte afro-estadunidense, cuja origem principal é de certas danças de regiões africanas de cultura iorubá que, depois, passaram por atravessamentos euro-colonizadores de danças irlandesas e inglesas.
A dança foi um dos elementos de cultura africana levada aos Estados Unidos através do processo de escravidão, que começou no século XVI, e desenvolvida apesar dele. Entre as várias violências sofridas pelas pessoas escravizadas, é relevante citar aqui o Negro Act de 1740. Esta lei foi implementada em maio de 1740 na Carolina do Sul, após a Stono Rebellion (1739), em que cerca de 50 africanos escravizados começaram uma rebelião que incluía a utilização de seus instrumentos musicais. Portanto, o ato de 1740 proibia que pessoas escravizadas cultivassem seu próprio alimento, aprendessem a ler e, entre outras proibições, que tocassem seus instrumentos. Essa repressão fez com que essas pessoas produzissem música e se comunicassem com seus próprios corpos. Acredita-se que aqui se fortaleceram danças percussivas que originaram linguagens como a do sapateado.
Nesse mesmo contexto surgiram estilos musicais como Jazz e Blues e também a dança Jazz. Entre os séculos XIX e XX, essas artes cresceram muito em Nova Iorque, onde aconteciam batalhas, trocas de improviso e encontros entre músicos e dançarinos. Hoje temos na cultura do Tap os conhecidos Cutting Contest, batalhas de improviso entre sapateadores, e as JAM Sessions, encontros entre músicos e sapateadores para improvisar com música ao vivo.
Aqui percebemos que o Tap, desde sua origem, esteve em um limite entre a dança e a música.
E por que comemoramos o Dia Internacional do Sapateado no dia 25 de maio?
Durante esse período do início do século XX, conhecido como Harlem Renaissance, muitos sapateadores ganharam destaque na indústria do entretenimento dos Estados Unidos, sendo o principal deles Bill Bojangles Robinson. Bill foi um sapateador e ator afro-estadunidense que ficou conhecido por suas apresentações na Broadway e em filmes de Hollywood nas décadas de 1930 e 1940, abrindo portas muitas vezes fechadas para pessoas pretas. Uma de suas cenas mais icônicas no cinema foi no filme Little Colonel de 1935, onde contracenou com uma criança branca, o que foi revolucionário para a época.
Percebemos por esse trecho a musicalidade de Bojangles, que além de manter o ritmo através dos pés sem uma música de acompanhamento, faz a melodia com a voz, imitando um som de sopro.
Já conseguimos entender um pouco de sua importância por aqui, não é? Em 1989, a data foi oficializada nos Estados Unidos. Além disso, um parque público no Harlem leva o nome de Robinson — uma forma de homenagear suas contribuições para a caridade e sua participação na vida cívica do bairro.
Além de Bojangles, não precisamos cavar muito na história do Tap para encontrar outros sapateadores musicistas, que reforçam essa ligação com sapateado com a música. Aqui temos alguns desses nomes:
Baby Laurence: nascido em 1921, era originalmente um cantor que aprendeu a dançar no Hoofers’ Club, um bar que era ponto de encontro de dançarinos no Harlem. Lançou, em 1976, o álbum DanceMaster tendo o sapateado como principal instrumento.
Sammy Davis Jr: foi um musicista, ator e dançarino nascido no Harlem em 1925. É muito conhecido por sua carreira como musicista, mas era também sapateador. Em 1972, gravou a música “Mr. Bojangles”, que virou uma de suas performances de assinatura, acredita-se que em homenagem a Bill Bojangles.
Estes exemplos são de uma época em que a música, dança e muitas vezes a atuação caminhavam juntas. Mas, independente de o sapateador tocar um instrumento ou não, ele faz música com os pés. Ainda hoje permanece viva a cultura de, em festivais, os artistas dançarem com música ao vivo, criando um diálogo.
Um exemplo atual de sapateadores e músicos apresentando-se juntos em diálogo é a companhia Music From The Sole, dirigida pelo sapateador brasileiro Leonardo Sandoval e pelo musicista estadunidense Gregory Richardson:
Como exemplo desse diálogo acontecendo em festivais, coloco aqui uma performance de Josette Wiggan, no Stockholm Tap Festival de 2016:
É importante que nossas referências atuais mantenham vivas partes essenciais da história do Tap, preocupando-se com um Tap Dance musical com raízes visíveis e firmes na cultura afro-estadunidense.
Em uma conclusão provisória, concluo portanto que o sapateado não é dança OU música, mas sim uma dança para se ouvir e música para se ver.
Curiosidades:
O Brasil é o segundo país com a maior comunidade de sapateadores no mundo, ficando atrás apenas dos Estados Unidos.
Na bateria, existe o termo shuffle para definir um som “swingado” feito com os pratos, mesmo nome de um passo de tap que faz um som parecido
O sapateado deve ser feito na madeira para garantir o som que esperamos, além de idealmente ser feito também com microfones para captar o som.
Referências:
SIEDLER, Elke; FERREIRA NAPOLI, Victória. SOMOVIMENTO: sapatear instabilidades. O Mosaico, [S. l.], v. 14, n. 1, 2022. DOI: 10.33871/21750769.2022.14.1.4583. Disponível em: https://periodicos.unespar.edu.br/mosaico/article/view/4583. Acesso em: 19 maio. 2026.
Biografia de Bill "Bojangles" Robinson. Disponível em: https://www.biography.com/performer/bill-bojangles-robinson
STEARNS, M. J. Jazz Dance: The Story of American Vernacular Dance, Da Capo Press, 1994.




Comentários