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Psicologia do esporte e a relação com a dança - Como lidar com a ansiedade antes das apresentações

  • Foto do escritor: Nayara Calixto
    Nayara Calixto
  • há 4 dias
  • 5 min de leitura

Atletas e treinadores vêm compreendendo, cada vez mais, a importância do acompanhamento psicoterapêutico para um bom desempenho no esporte. Um exemplo recente disso foi a ginasta e campeã olímpica Rebeca Andrade, que destacou, durante as últimas Olimpíadas, como o acompanhamento psicológico foi fundamental para seu desempenho e bem-estar.


Na dança, apesar de existirem pesquisas e profissionais trabalhando com aspectos psicológicos há alguns anos, a discussão ganhou maior visibilidade e espaço institucional mais recentemente. Temas como ansiedade, perfeccionismo, imagem corporal, transtornos alimentares, lesões e saúde mental de bailarinos passaram a receber mais atenção nos últimos anos, especialmente entre bailarinos de alto rendimento.


Embora sejam áreas diferentes em diversos aspectos, a dança e o esporte compartilham semelhanças, principalmente no que diz respeito ao preparo físico, à disciplina e às exigências de competições e apresentações. A Psicologia do Esporte pode ser definida como o campo que estuda os comportamentos de indivíduos envolvidos em atividades esportivas e físicas. Essa área integra conhecimentos da Psicologia e das Ciências do Esporte, analisando o esporte e o exercício físico a partir de uma perspectiva psicológica (Vieira et al., 2010).


Aqui também é importante ressaltar que existem estudos e práticas voltados à Psicologia da Dança, uma área em processo de consolidação. Um nome referência no Brasil nesse campo é a psicóloga Maria Cristina Lopes, que criou o 1º curso de psicologia da dança no Brasil em 2016 e está na fundação da 1° Pós-Graduação em psicologia da dança nesse ano de 2026.  

Segundo Maria Lopes, a psicologia da dança integra o conhecimento científico, a compreensão da cultura dos contextos da dança (escolas, companhias e outros)  e a escuta do paciente. Em outras palavras, a psicologia da dança parte de uma compreensão específica desse campo para evitar definições simplistas, buscando identificar padrões e características, como o perfeccionismo, a cultura da magreza, os transtornos alimentares (frequentemente naturalizados nesse meio) e as lesões.


No post de hoje, convidamos Caroline Machado — psicóloga clínica e do esporte e parceira da Balleto —  para falar sobre como podemos lidar com a ansiedade antes das apresentações/ competições de Dança.


Caroline Machado - Psicóloga Clinica de crianças e adolescentes e psicóloga do esporte
Caroline Machado - Psicóloga Clinica de crianças e adolescentes e psicóloga do esporte

Como você relaciona os estudos da psicologia do esporte com a dança? 


Caroline: Embora muitas pessoas associem a Psicologia do Esporte apenas aos esportes competitivos, ela também tem uma contribuição muito importante para a dança. O bailarino, assim como o atleta, lida com desafios relacionados ao desempenho, à disciplina, à pressão por resultados, à exposição ao público, ao medo de errar e à busca constante por aperfeiçoamento.

A Psicologia do Esporte nos ajuda a compreender como fatores emocionais influenciam a performance, o aprendizado de habilidades, a confiança e a relação com o próprio corpo. Na dança, isso é especialmente relevante porque estamos falando de uma atividade que envolve técnica, expressão artística e emoções ao mesmo tempo.

Por isso, conceitos como autoconfiança, regulação emocional, atenção, concentração, motivação e enfrentamento da ansiedade são temas que atravessam tanto o esporte quanto a dança.


Qual é a importância de bailarinos terem um acompanhamento psicoterapêutico?

 

Caroline: O acompanhamento psicoterapêutico pode ser um espaço importante de acolhimento, autoconhecimento e desenvolvimento emocional para bailarinos de todas as idades.

A dança exige dedicação, constância e, muitas vezes, convivência com cobranças internas e externas. Além disso, apresentações, audições, competições e avaliações podem despertar ansiedade, insegurança e medo de falhar.

A psicoterapia esportiva auxilia o bailarino a compreender melhor suas emoções, desenvolver estratégias para lidar com desafios, fortalecer a autoestima e construir uma relação mais saudável consigo mesmo e com sua prática artística.

Mais do que melhorar o desempenho, o objetivo é promover bem-estar, saúde mental e qualidade de vida. Quando o emocional está cuidado, o bailarino tende a se sentir mais seguro para expressar todo o seu potencial.


O que os professores podem fazer para auxiliar os alunos ansiosos antes da apresentação?


Os professores têm um papel fundamental nesse momento. Muitas vezes, o aluno não precisa que sua ansiedade desapareça, mas sim sentir que não está sozinho diante dela.

Algumas atitudes podem ajudar:

  • Validar os sentimentos do aluno, mostrando que sentir nervosismo antes de uma apresentação é algo comum;

  • Evitar cobranças excessivas ou comentários que aumentem a pressão pelo resultado;

  • Reforçar o processo de preparação e dedicação, e não apenas o desempenho final;

  • Manter uma postura calma e segura, pois os alunos costumam se regular emocionalmente a partir das referências dos adultos;

  • Incentivar a confiança nas habilidades já construídas ao longo dos ensaios;

  • Criar um ambiente acolhedor nos bastidores, favorecendo apoio e cooperação entre os colegas.

Quando o aluno percebe que pode errar, aprender e continuar sendo valorizado, a ansiedade tende a se tornar mais manejável.



Existem exercícios que podem ser realizados para auxiliar no controle da ansiedade? Quais você indicaria a um bailarino antes de subir no palco?


Caroline: Sim. Existem algumas estratégias simples que podem ajudar o bailarino a regular o corpo e as emoções antes de uma apresentação. Uma delas é a respiração diafragmática, realizando inspirações lentas pelo nariz e expirações mais longas pela boca. Esse tipo de respiração envia sinais de segurança ao organismo e contribui para diminuir a ativação excessiva do corpo.

Também gosto de incentivar a visualização positiva. O bailarino pode fechar os olhos por alguns instantes e imaginar a apresentação acontecendo da forma como treinou, focando não na perfeição, mas na experiência de dançar com presença, confiança e conexão com aquilo que está fazendo.

Além disso, é importante lembrar que um certo nível de ansiedade é esperado antes de entrar em cena. O objetivo não é eliminar completamente essa emoção, mas aprender a conviver com ela de maneira saudável, transformando a energia da ansiedade em foco, presença e expressão artística.

Afinal, sentir aquele frio na barriga antes de subir ao palco não significa falta de preparo. Muitas vezes, significa apenas que aquilo que está prestes a acontecer é importante para você.

Também considero importante destacar que as técnicas são ferramentas valiosas, mas precisam ser utilizadas de forma adequada e dentro de um contexto mais amplo. Não adianta realizar uma técnica isoladamente se não existe toda uma preparação emocional e psicológica por trás. Além disso, precisamos ter cuidado com a ideia de que existe uma estratégia que funciona para todos. Nem sempre o que ajuda uma pessoa terá o mesmo efeito para outra.

Por isso, na Psicologia falamos tanto sobre individualidade, singularidade e subjetividade. Cada bailarino(a) possui sua própria história, suas experiências e sua forma de lidar com as emoções. O mais importante é construir recursos que façam sentido para aquela pessoa e que possam ser utilizados de forma consistente ao longo do processo.




Referências:

DOS SANTOS, Sandy Freitas. A DANÇA ENQUANTO RECURSO PSICOTERÁPICO PROVEDORA DE MUDANÇAS BIOPSICOSSOCAIAS. Revista Psicologia & Saberes, [S. l.], v. 8, n. 11, p. 350–359, 2019. DOI: 10.3333/ps.v8i11.850. Disponível em: https://revistas.cesmac.edu.br/psicologia/article/view/850  Acesso em: 26 maio. 2026. 

VIEIRA, Lenamar Fiorese;  VISSOCI, João Ricardo Nickenig; OLIVEIRA,  Leonardo Pestillo de; VIEIRA,  José Luiz Lopes. Psicologia do esporte: uma área emergente da psicologia, 2010. Disponível em:  https://www.scielo.br/j/pe/a/dxqXV7GtH7zkCLkzYq7K7Wd/?lang=pt  Acesso em: 26 maio 2026.


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