A dor faz parte da dança?
- Nayara Calixto

- há 4 dias
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Como já abordado em outros posts, a dança é uma linguagem artística, mas também pode ter outras características e funcionalidades. Dependendo do contexto e dos objetivos, ela pode ter maior ênfase no desenvolvimento físico, em uma função terapêutica, no entretenimento ou até mesmo na união entre esses e outros aspectos.
Quando falamos da dança enquanto linguagem artística, como trabalhamos aqui na Balleto, ela também demanda um bom preparo físico, principalmente dos bailarinos de alta performance, que geralmente são aqueles que estão nos anos finais de sua formação e/ou já atuam profissionalmente. Isso porque o corpo do(a) bailarino(a) tem uma rotina de treinos/ensaios que exige força, flexibilidade, resistência, potência e equilíbrio.
Assim, uma sensação de cansaço e dores após uma aula e/ou ensaio pode fazer parte desse processo. Porém, é importante diferenciar as dores de trabalho (uma dor de treino) de dores de uma lesão.
Mas, dores persistentes, localizadas, recorrentes ou que limitam a execução dos movimentos podem ser sinais de que o corpo precisa de uma avaliação e orientação adequada. Pensando nisso, este post contará com a participação da nossa professora de fortalecimento muscular Ana Luísa Ferreira, graduanda em fisioterapia pela IFRJ, que irá nos ajudar a compreender melhor até que ponto a dor faz parte da rotina na dança e em quais situações o bailarino deve buscar o acompanhamento de um especialista.

1. A dor faz parte da dança? Entendendo os sinais do corpo e a diferença da “dor de treino” das dores de lesão:
Profa. Ana Luísa - A dança é uma atividade que exige intenso esforço físico e grande dedicação. A rotina de aulas, ensaios e apresentações faz parte da formação dos bailarinos, contribuindo para o desenvolvimento de competências essenciais para a dança, como: força, resistência, equilíbrio, flexibilidade, velocidade e controle corporal. Entretanto, essa alta demanda física e exigência corporal também está diretamente relacionada ao surgimento de dores e lesões.
Embora o público veja apenas movimentos leves e graciosos, por trás das apresentações existem muitas horas de treinamento intenso, repetição de movimentos e superação constante dos limites físicos. Estudos mostram que entre 55% e 90% dos bailarinos sofrem algum tipo de lesão ao longo da carreira, principalmente devido ao excesso de treino e às lesões por sobrecarga, causadas pela repetição contínua dos mesmos movimentos.
É importante diferenciar a dor de treino ("dor boa") da dor de lesão. A dor de treino é uma resposta normal do organismo ao esforço físico. Ela costuma aparecer após exercícios intensos, principalmente quando há aumento da carga de treinamento ou mudança na rotina. Exemplos comuns incluem dores musculares após exercícios de força, treino de flexibilidade, trabalho em pontas ou saltos. Essas dores normalmente desaparecem entre 24 e 48 horas, não impedem o bailarino de continuar suas atividades normalmente.
Já a dor de lesão é um sinal de que alguma estrutura do corpo foi lesionada e necessita de atenção. Ela pode surgir após um trauma, como uma entorse, fratura, luxação ou estiramento muscular, ou aparecer de forma gradual devido ao excesso de uso das articulações, músculos e tendões. Diferentemente da dor de treino, essa dor tende a piorar durante a atividade, limitar os movimentos e comprometer o desempenho.
É importante ressaltar que além das dores físicas, os bailarinos também convivem com questões psicológicas relacionadas ao estresse, ansiedade, medo de errar, pressão por resultados, comparação constante e busca pela perfeição. Muitas vezes, esse cenário de sobrecarga mental pode acarretar na amplificação da dor e piorar os sintomas físicos do bailarino. Logo, a atenção não é apenas para o corpo deste atleta.
2. Reconhecendo os sinais de alerta:
Profa. Ana Luísa - Embora sentir algum desconforto após treinos seja esperado, algumas dores persistentes indicam que é necessário procurar avaliação profissional. Ignorar esses sinais pode transformar uma lesão simples em um problema crônico, implicando em comprometimentos corporais a longo prazo e deteriorando a qualidade de vida.
Os principais sinais de alerta são: dor intensa que não melhora após 48 horas de repouso, dor que desperta durante a noite, dor presente logo no início da atividade física ou que aumenta durante a dança, dor persistente ou recorrente, dor que altera a forma de caminhar ou de executar os movimentos, dificuldade para apoiar o peso do corpo ou movimentar uma articulação, inchaço importante, hematomas ou deformidades visíveis, estalos acompanhados de dor intensa ou sensação de ruptura, dormência, formigamento ou perda de força muscular, vermelhidão, aumento da temperatura local ou febre.
Buscar ajuda precocemente permite um diagnóstico adequado, reduz o tempo de recuperação e diminui o risco de complicações e sequelas.
3. Como prevenir lesões e como a fisioterapia pode auxiliar os bailarinos?
Profa. Ana Luísa - Como a dança exige movimentos repetitivos, alta intensidade e grande amplitude articular, é fundamental preparar o corpo para suportar essas exigências.
As principais estratégias de prevenção incluem: realizar aquecimento antes das aulas e apresentações, fazer alongamentos e movimentos de desaceleração gradual após os treinos, respeitar os períodos de descanso e recuperação, manter alimentação equilibrada e boa hidratação, utilizar sapatilhas e equipamentos adequados a cada corpo, executar corretamente a técnica dos movimentos, conhecer os próprios limites físicos.
É essencial ressaltar a importância da realização de um treinamento complementar para ganho de força muscular e resistência que deixaram o corpo preparado para executar os movimentos de alta demanda física. Treinos complementares como: musculação, Pilates, yoga e exercícios cardiovasculares, podem ser interessantes para melhora da força, equilíbrio, resistência e controle.
Pilates e a prevenção de lesões em bailarinos: O Pilates é uma estratégia terapêutica utilizada por muitos fisioterapeutas e incorporada na prática clínica tanto para o tratamento de lesões como forma de prevenção e melhora na performance dos atletas, principalmente bailarinos.
Na década de 1920, Joseph Pilates, criador do método, abriu um estúdio em Nova York, e rapidamente a prática conquistou bailarinos, pois a modalidade de exercício ajuda no fortalecimento muscular e na melhora do desempenho físico.
Durante os exercícios, há grande ênfase no fortalecimento da musculatura do core(abdômen, coluna, pelve e quadris), responsável pela estabilização do corpo durante saltos, giros, extensões e aterrissagens. Um core fortalecido melhora o alinhamento corporal, reduz sobrecargas nas articulações e diminui o risco de lesões.
Além disso, o Pilates contribui para o aumento da consciência corporal, permitindo que o bailarino reconheça seus limites, execute os movimentos com maior precisão e identifique compensações que podem favorecer lesões por sobrecarga. A prática também melhora a flexibilidade, a mobilidade articular e o equilíbrio muscular, reduzindo tensões excessivas e favorecendo uma melhor distribuição das cargas durante a dança.
Quando associado ao treinamento técnico e ao acompanhamento fisioterapêutico, o Pilates auxilia tanto na prevenção quanto na reabilitação de lesões, proporcionando maior segurança durante a prática. Diante disso, a fisioterapia tem papel fundamental tanto na prevenção quanto na reabilitação das lesões. O fisioterapeuta avalia a postura, o alinhamento corporal, a força muscular, a mobilidade e possíveis desequilíbrios que aumentam o risco de lesões. Além disso, atua na elaboração de programas individualizados de fortalecimento, correção dos padrões de movimento, melhora da flexibilidade, treinamento de equilíbrio e propriocepção, além de acompanhar o retorno seguro às atividades após uma lesão.
Durante a recuperação, a fisioterapia reduz a dor, acelera o processo de cicatrização, restaura a função do corpo e diminui as chances de novas lesões. Dessa forma, além de prevenir problemas musculoesqueléticos, contribui para melhorar a performance, promover saúde, bem-estar e qualidade de vida.
Embora a dor faça parte da rotina da dança em certos momentos, ela não deve ser considerada normal em todas as situações. Saber diferenciar a dor decorrente do treinamento daquela causada por uma lesão é essencial para preservar a saúde do bailarino. A prevenção, o acompanhamento fisioterapêutico e a busca por atendimento profissional diante dos sinais de alerta são fundamentais para garantir um desempenho seguro e uma carreira mais longa e saudável.
Referências:
Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 24, n. 5, p. 1657-1667, 2019. Disponível em: https://www.scielosp.org/pdf/csc/2019.v24n5/1657-1667. Acesso em: 21 jul. 2026.
JOHNS HOPKINS MEDICINE. Common dance injuries and prevention tips. Disponível em: https://www.hopkinsmedicine.org/health/conditions-and-diseases/sports-injuries/common-dance-injuries-and-prevention-tips. Acesso em: 21 jul. 2026.
LOPES, A. D. et al. Sintomatologia dolorosa e fatores associados em bailarinos profissionais. Revista Brasileira de Medicina do Esporte. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbme/a/Xn8JKZrTsRgdSdPv33Tsz5H/?lang=pt&format=pdf. Acesso em: 21 jul. 2026.
NASCIMENTO, Vanda. A dor na dança: identificar tipologias de dor e apontar (algumas) estratégias para as minorar. Escola Superior de Dança, Instituto Politécnico de Lisboa.
PETITE DANSE. Como reduzir lesões no ballet. Disponível em: https://petitedanse.com.br/como-reduzir-lesoes-no-ballet/. Acesso em: 21 jul. 2026.




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