Os métodos e os estilos do balé clássico (parte 2): por que ainda não temos um método brasileiro de ensino do balé?
- Nayara Calixto

- 30 de jun.
- 6 min de leitura
Na primeira parte da sequência de posts sobre os chamados métodos e estilos do balé clássico, discutimos os diferentes pontos de vista de pesquisadores e professores sobre a classificação do que é um método de ensino do balé e do que caracteriza um estilo. Já no post de hoje, refletiremos sobre as possibilidades e implicações de pensar um método brasileiro de ensino do balé clássico.
Para isso, é importante compreender que uma aula de balé clássico é composta por diferentes dimensões metodológicas, já que metodologia se refere à maneira como organizamos e conduzimos o processo de ensino. Nesse contexto, podemos identificar uma dimensão relacionada ao método/sistema de ensino adotado, como as grandes escolas apresentadas no último post, e outra vinculada à metodologia de cada professor, construída a partir de seus princípios pedagógicos, de sua experiência e de suas escolhas didáticas.
Isso significa que dois professores formados pelo mesmo método podem conduzir suas aulas de formas bastante diferentes, mesmo compartilhando a mesma base de formação. Em outras palavras, os métodos de ensino do balé orientam a organização do ensino e seus princípios técnicos, enquanto a metodologia diz respeito à forma como cada professor coloca esse método em prática em sala de aula.
Essa metodologia específica de cada professor também evidencia elementos que vão além da técnica relacionados à visão de mundo do professor. Por exemplo, se um dos princípios que orientam a metodologia de ensino do professor de balé é o respeito à diversidade, isso aparecerá nas suas aulas por meio de seus discursos e atitudes, compreendendo que a formação em balé clássico também pode contribuir para a construção de um olhar mais crítico e inclusivo sobre a dança e a sociedade.
Então, se professores brasileiros já desenvolvem diferentes metodologias de ensino, seria possível afirmar que existe um método brasileiro de ensino do balé clássico?
Em geral, um método é caracterizado por uma organização sistematizada de princípios técnicos e pedagógicos, com uma estrutura própria de progressão dos conteúdos e objetivos de aprendizagem. Ou seja, não se trata apenas da prática individual de um professor, mas de um sistema de ensino bem estruturado, com especificidades, que pode ser estudado, aplicado e transmitido por diferentes docentes.
Apesar de reproduzir ideais de corpo, gênero, raça e classe social que nem sempre dialogam plenamente com a diversidade das corporeidades presentes no Brasil, o balé se tornou parte da cultura do país, estando presente em escolas, estúdios, academias, projetos sociais e em diversas instituições de ensino, além de contar com companhias profissionais públicas e privadas. Também existem diversos pesquisadores e professores brasileiros que desenvolveram propostas pedagógicas próprias e contribuíram significativamente para o ensino do balé clássico no país.
No entanto, isso não significa, necessariamente, que exista um método brasileiro consolidado. Ao mesmo tempo, essas iniciativas revelam que o Brasil produz conhecimento sobre o ensino do balé clássico e apontam para a possibilidade de construir formas de ensino que dialoguem com a realidade, a cultura e as necessidades dos estudantes brasileiros.
Com isso, são utilizados métodos estrangeiros para formar os bailarinos brasileiros, sendo os mais usados em território nacional o Vaganova e da Royal Academy of Dance. Isso se deve a fatores históricos: a primeira escola oficial vinculada ao Estado brasileiro foi a Escola de Danças Clássicas do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, criada em 1927 por Maria Olenewa - uma bailarina russa; e o método da Royal se difundiu amplamente por meio de estruturas de certificação internacional que permitem a formação de professores e estudantes fora do país de origem do método.
Assim, talvez a pergunta mais interessante não seja se já existe um método brasileiro de balé clássico, mas quais características uma proposta de ensino precisaria reunir para ser reconhecida como um método e em que medida ela poderia refletir as especificidades do contexto brasileiro. Antes disso, debateremos os possíveis motivos de, até o momento, não haver um método brasileiro de balé clássico amplamente reconhecido nacional e internacionalmente.

Por que não temos um método brasileiro consolidado?
Essa questão foi levantada em uma das aulas de Teoria e Balé de Repertório da Balleto, ministrada por mim e pela professora Isadora Almeida. Nesse debate, a professora Isadora evidenciou um fato importante: ao contrário da Rússia, onde o balé recebeu forte incentivo no período imperial como parte de um processo de ocidentalização cultural, o balé clássico não foi uma prioridade nas políticas culturais brasileiras.
Com o passar do tempo, o balé deixou de ser apenas um instrumento de aproximação cultural e passou a integrar profundamente a identidade artística da Rússia. Hoje, o balé russo é reconhecido mundialmente como uma das maiores referências da área e constitui um dos elementos mais emblemáticos da cultura russa.
Em Cuba, o desenvolvimento do balé também contou com incentivo estatal, fator que contribuiu para a consolidação da Escola Cubana de Balé e para o reconhecimento internacional de seu sistema de ensino.
O segundo ponto que ajuda a compreender por que ainda não temos um método brasileiro de balé clássico consolidado está relacionado à valorização e ao reconhecimento das produções nacionais. Afinal, caso existisse um método brasileiro, ele seria valorizado pelos próprios brasileiros? Ou continuaríamos considerando os sistemas estrangeiros superiores?
Essas são questões importantes, pois ainda é comum, no Brasil, a ideia de que produções estrangeiras possuem mais qualidade ou prestígio do que aquelas desenvolvidas no próprio país. No entanto, para que um método brasileiro conquiste reconhecimento internacional, ele precisa, antes de tudo, ser reconhecido, estudado e valorizado internamente.
Quais seriam as características de um método brasileiro?
Como já mencionado, os métodos consolidados compartilham princípios técnicos fundamentais do balé clássico, mas apresentam especificidades que refletem aspectos históricos, culturais e sociais dos contextos em que foram desenvolvidos. O método cubano, por exemplo, foi estruturado considerando características frequentemente observadas nos bailarinos cubanos, além das influências culturais do país. De maneiras diferentes, também é possível identificar influências culturais e estéticas nos outros métodos consolidados.
Nesse sentido, um método brasileiro precisaria dialogar com a realidade cultural do Brasil e com a diversidade de corpos presentes. Considerando a ampla diversidade da população brasileira, seria importante que uma proposta de ensino levasse em conta diferentes estruturas corporais, sem partir da ideia de um único padrão físico.
Se um método expressa os valores da sociedade em que é produzido, então um método brasileiro contemporâneo deveria responder aos desafios da sociedade brasileira, entre eles o enfrentamento do racismo. Defendo que um método brasileiro de balé clássico deve ser, em sua essência, antirracista.
Historicamente, o balé clássico foi construído a partir de padrões estéticos e sociais que, muitas vezes, deram origem a práticas excludentes e discriminatórias. Embora essas práticas estejam relacionadas aos ideais de corpo, classe social, raça e feminilidade que marcaram a história dessa dança, é importante reconhecer que elas não se perpetuam apenas por causa dessa herança. São as escolhas, atitudes e discursos das pessoas, assim como as metodologias dos professores, que mantêm ou transformam esses padrões. Afinal, o balé clássico é construído cotidianamente por quem o ensina, o pratica e o vivencia.
Dentro disso, em diversos contextos, discursos relacionados a corpo, cor de pele e pertencimento foram naturalizados sob a justificativa de que faziam parte das “tradições do balé”. É importante lembrar, porém, que tradição não significa imobilidade.
O balé clássico é uma dança tradicional, mas não é uma arte ultrapassada ou incapaz de se transformar. Ao longo de sua história, passou por inúmeras mudanças técnicas, artísticas e pedagógicas. Portanto, a ideia de tradição não pode ser utilizada para justificar atitudes discriminatórias ou para impedir avanços necessários.
Ao pensar na realidade brasileira, essa reflexão torna-se ainda mais relevante. O Brasil foi constituído por profundas desigualdades raciais e o racismo é estrutural. Dessa forma, a construção de um método brasileiro de balé clássico exige o enfrentamento dessas questões, promovendo uma formação que reconheça e valorize a diversidade étnico-racial do país.
Assim, surge uma pergunta fundamental: como construir um método genuinamente brasileiro que seja, em sua essência, antirracista, inclusivo e comprometido com a valorização da diversidade?
Essa é uma reflexão indispensável para pensar não apenas o futuro do balé clássico no Brasil, mas também o papel da dança na construção de uma sociedade mais justa.
Referências:
CALIXTO, Nayara Ferreira. Balé clássico, formação docente e espaços não-formais: Por um ensino antirracista na dança. 2025. Dissertação de mestrado. Disponível em: https://eefd.ufrj.br/ppgdan/banco
CIDRIM, Kamila. Ballet: Métodos e Corpos, 2021.
SILVA, Anna Beatriz Sanchez. A Arte, o Corpo e a Estética no Ballet Clássico, 2020.
Alice Arja - Metodologias e estilos do ballet || Royal, Cecchetti, Vaganova, Cubana, Bournonville, Balanchine. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=ShFzh3k6Jr8&t=271s




Comentários